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Thursday, January 29, 2009

"I wondered if a memory is something you have or something you've lost."

(em "A Outra", de Woody Allen, 1988)

Friday, November 23, 2007

Rio, 18 de novembro de 2007. Santos Dumont.

Anoitece azulado o Rio. Na pista, luzes vermelhas piscam piscam piscam enquanto procedimentos de decolagem são feitos. Há maresia em mim. Carrego dentro do avião - será que eles percebem? Domingo de sol depois de dias chuvosos traz a mais óbvia nostalgia no embarque: um caso de melancolia aérea com gostinho de quero-mais.

Sunday, November 18, 2007

Saudade

quero fugir
ir à praia
com Sophia

ouvir as ondas
que batem
só pra mim

ver a poesia
menor que o mar.

Wednesday, November 07, 2007

Shuffle

Setembro me lembra de julho - o verão acaba e pensa-se que o romance continuará. Estações mudam, bicicletas quebram e mesmo assim parece que tudo ficará bem. Submarino amarelo revelado deixa a vida real do lado de fora, quente e densa como o vento de verão. O céu continua azul, o mar é verde e isso tudo não tem pausa. Aqui não é verão em setembro. E já é novembro. Vontade de sair sozinha e criar um novo futuro pro meu passado.

Submarino amarelo revelado deixa a vida real do lado de fora, quente e densa como o vento de verão. O céu continua azul, o mar é verde e isso tudo não tem pausa. Vontade de sair sozinha e criar um novo futuro pro meu passado. Estações mudam, bicicletas quebram e mesmo assim parece que tudo ficará bem. E já é novembro.

Aqui não é verão em setembro.

Friday, October 26, 2007

SP

O caminho
Brasílio Machado>Marechal Deodoro>Anhangabaú>Nove de Julho>São Gabriel>Santo Amaro

O tempo
Aqui o tempo me engana. Rapidinho, já passou um mês e meio. Uso casaco, e esquenta. Não importa a hora em que eu saia de casa, chego atrasada. E o valor do tempo, esse sim, que me maltrata a todo instante.

A janela
Tudo cinza, a imagem que eu vejo. E lá no fundo, bem onde meus olhos não alcançam mais, uma varanda com gente feliz.

A língua
Não há muitos ruídos de comunicação; o que há é falha proposital. "Vou ao mercado de segunda e de quinta" não me parece a melhor forma de explicar a frequência. Então pergunto: "ah, de segunda a quinta?" ou "ah, às segundas e às quintas?" - prefiro assim, cariocamente.

Os encontros
Sinto falta do Jobi.

O caminho de volta
Santo Amaro>São Gabriel>Nove de Julho>Anhangabaú>Marechal Deodoro>Brasílio Machado

Tuesday, October 16, 2007

24 de setembro

a primavera chegou ontem
e eu só me lembro
das folhas cariocas verdes
amarelas vermelhas
as folhas da beta
que eu ziguezagueio
sorrindo de bicicleta
aqui não vejo primavera
nem primaveras
vejo esse dia de hoje
quente e frio
num ritmo que não é meu
com lembranças alheias
sonhos distantes
e claustrofóbicos
a primavera aqui chegou
num domingo-domingo
com dificuldades tais
primavera é sábado
é rio
é amendoeira
é cor
saudade primaveril
folhas de memórias
distantes e minhas.

14 de outubro

Daqui ela não sabe mais o que quer. Tenta focar, estabelecer prioridades mas a maresia a confunde. Quer a brisa, ela sabe. Quer o sol, o vento nos cabelos, o sal no corpo. Mas quer com quem? Sozinha não é suficiente, ela rege sua própria orquestra de um só instrumento; sua voz é apenas sua. Movimenta-se entre um lado e outro do desejo – há alguns desejos que deveriam ser apenas latentes mas que tentam chegar à superfície nesta cidade que a acolhe como nenhuma outra. Não queria esse confrontamento aqui; bem que poderia ter acontecido em algum outro lugar, pra levar daqui a idéia de que há constrangimentos em que ela mesma se coloca. A fantasia de criança tentou crescer em um ano e ela não quis, empurrou lá pra dentro do armário, junto com os choros de ontem. A cidade não pode ter esse peso, ou pelo menos assim ela quer. Essa cidade tem que ser apenas diversão, apenas areias entre os dedos, apenas chuva de verão, apenas o lar em que ela sabe que pode estar em segurança. A vida não parece mais tão presa a alguns quarteirões; há vida lá fora. Neste momento, o lá-fora é a cidade cinza que traz uma perspectiva tão diferente quanto improvável – é possível ser feliz sem o vento nos cabelos? Fecha os olhos, imagina a brisa, sente a maresia nas lembranças e vai em frente. A bicicleta perdeu as marchas, enferrujou a corrente e suja o vestido de graxa, mas ainda a leva à beira da lagoa, ao pier do passado lindo e do futuro promissor onde se ouve Beatles e se vê a luz amarela nas folhas vermelhas. É só lembrar, sempre, que a bicicleta fica destrancada na garagem mas que, se precisar, a chave tá dentro da bolsa. Da bolsa dela.

Thursday, October 04, 2007

Não-diário roubado

15 de janeiro
Aquela dorzinha habitual passou de hábito a vício, necessidade, fundamento. Me acalma e me salva de todo o resto.
(menos dela própria)

6 de março
da rede eu te vejo passar
deixo a bola cair
e sorrio pro vento
quando você chegar no dois irmãos
eu vou fazer um ponto
em sua homenagem
e fantasiar que um dia eu consiga
fazê-lo na sua frente
na minha rede
nossa.

6 de março (pensando em amanhã)
amanhã vou fazer o ponto
na sua frente.

mas como saberei que é você?

5 de maio
tudo sempre parece que vai dar certo
às nove da manhã de um dia qualquer.

8 de maio
e não é que você tinha razão?

24 de junho
já é inverno e as folhas amarelas do outono enfeitam o chão.
ziguezague veloz na bicicleta vermelha pra não atropelar a única prova da troca de estação.
aqui sempre parece verão.

5 de julho
Ele disse que o momento da vida é bem diferente da vida naquele momento.
Ela disse alguma coisa que eu traduzi. Mas traduzi pra própria língua dela.
"An ordinary man who climbs a tree and becomes an extraordinary guru."

Tuesday, September 25, 2007

Corporate

Dentro dos vidros que deixam o frio seguramente lá fora, junto com os aviões que passam quase-pousando, ela se isola da cidade. Fica o zumzumzum de um lado, ela do outro. As contas com muitos dígitos na planilha gritam por realidade mas ela ouve baixinho, baixinho, ao longe. A realidade dela é cada vez mais distante, num tempo passado e desprotegido. Pode ser que ela se acostume à ausência dos elementos vivos, sépticos, cheios de rachaduras e erros de percurso. E no futuro ela olhe tudo isso com grande pavor e pense que a melhor qualidade do presente é a certeza de que um ventinho não vai derrubar as folhas no chão. Elas já estão paralisadas, betamente alaranjadas, naquele chão cheio de lembranças e maresia.

Thursday, September 20, 2007

em 21/08

O diário não é mais escrito, as crianças louras cresceram e deixaram de ser louras, o mirante da Gávea foi desativado. Mas a noite continua longa e Cecilia mantém sua piedosa lírica.

Monday, July 30, 2007

tese

ainda há peixes na Lagoa,
ela constata ao aumentar
os beatles no ouvido
e alimentar a nostalgia.

sol de junho -
timeless june –
revela a árvore
solitária
e misteriosa
da Pedra da Gávea.

o pier mantém o tempo
no passado
naquele tempo
em que não existia
beatles em seu ouvido
mas já existiam
peixes na Lagoa.

Saturday, June 09, 2007

bloquinho de anotações

enquanto a neblina encobrir o morro, ah, eu posso ser feliz nessa terra cinza. e esperar horas no aeroporto sem teto olhando o céu através do vidro novo que deixa a luz da cidade entrar. e quando o azul encontrar meus olhos, direi "olha o azul!" apontando pra um lugar em que nada se vê. eu vejo você. vejo a ausência de reflexo na água distante e escura. vejo o silêncio impresso nas pausas. vejo o hiato que há na saída. e daí posso ir, sabendo que tudo o que não está continuará não-estando por aí. enquanto a neblina encobrir, eu estarei seguramente coberta. mantinha quentinha na lembrança, a moça chama um passageiro que não sou eu no auto-falante. desconecta minha memória e eu vejo o tempo passando. é bom esperar vendo o tempo passar devagar. depressa é ruim. o mate já ficou quente, o sol brilhou mais forte, o morro já dá pra ver, o vôo vai sair. tem que pedir o lado direito, se quiser ver a vista linda. eu sempre quero, né. os monumentos de cor azul-cinza, dois irmãos brincando no mar e a música, e a música. o vizinho faz anotações em sol maior e eu consigo vê-lo no ar. são as nuvens, é o mar. aquele mesmo mar de sempre.

Tuesday, May 29, 2007

Romance privado

27/05
O verão já acabou há meses. E tá pra acabar de novo.

Diário público

Naquele lugar, só a gente sabia ser feliz. Era fácil, até. Quatro paredes, uma cama, tantos sonhos e realidades e aquele janelão que trazia as coisas lá de fora. Nada perturbava a perfeição. O calor não atrapalhava. Nem o Natal, que chegava. Nem o piano do vizinho, tecla por tecla. Nem o fim iminente. Nem o amor. Nada, nada, nada. Os sorrisos eram muitos, os arrepios tão naturais como o quente vento noturno e a gente mal sabia que aquele lugar estava fadado ao nosso sucesso. Só nosso. As lembranças do quarto nos pertencem tanto quanto os segredos que criamos naqueles lençóis, ao ouvirmos o dó-re-mi solitário e distante, ao nos perdermos sem medo do fim, ao bater do relógio. O tempo parou num instante que durou um verão inteiro. A gente só sabia ser feliz naquele lugar, meu bem.

Monday, May 28, 2007

Desorganize-se

O vento quente me levou ao Arpoador pra ver a lua cheia. Era tão clara a noite que nem parecia dia de finados; tava mais pra carnaval. Na beira das pedras, umas crianças magras brincavam no mar, levando caixotes propositais e rindo um riso gostoso que ecoava nos prédios e voltava pra eles em forma de quero-mais. Queria que aquela fosse a minha memória de infância. Talvez eu devesse incorporá-la às minhas lembranças construídas, assim como o soltar pipa com que sempre sonhei.