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Friday, April 29, 2011

cansaço

corria uma maratona
como se fosse 100 metros
rasos.

Wednesday, January 12, 2011

aquário

distraída, encaixei meu ouvido
no lugar errado.

minha sombra aponta pra outro
lado - onde o mesmo sol nasce.

(a vontade de esquecer o susto
de ter vislumbrado a quase-sensação
mais uma vez.)

refleti tua imagem no meu espelho
mas foi insuficiente;
o teu reflexo é na água,
impreciso, movido a maré,
belo narciso.

Friday, November 19, 2010

em 16/07/08

a página em branco compadece
da mesma solidão
ela é passada para trás
como eu,
sem chance de retratar
a ausência
palavra por palavra
em silêncio
sem escrita
compadecemos
ela e eu.

Friday, September 03, 2010

do lado

um verbo e seu antônimo
um aposto antigo
que você atualiza com duas letras na frente
uma listinha mental de tudo que ama que odeia
a lembrança do toque e aí vejo
um fio de cabelo fora do lugar
oportunidade de fazer um carinho justificado
ou melhor: puxo com força.

(era branco. agora foi-se)

Friday, May 14, 2010

eu já fugi pra dentro

tantas vezes que
nem lembro mais.

me assombrei, retirei
tudo de fora e
enfurnei como quem
guarda o que não pode
perder.

fugi pra dentro de você
uma vez por dia
durante todos eles,
eu fugia.

como quem guarda
o que não pode
perder.

a fuga maior, a sua,
é pra fora.

um risco inspira
uma fuga
que é um risco
de caneta
num passaporte
qualquer
em um aeroporto
cheio de fugitivos
e de encontrados.

a fuga futura já é
presente,
talvez seja até
passada;
a fuga já nasce
fugaz.

Tuesday, October 28, 2008

subtexto

Sempre queremos ter todas as evidências da posição que ocupamos. Sempre. Carimbo na folha que diz "sou especial", com assinatura registrada em cartório e cuspe para comprovar, no amassado do papel, que o documento foi revisado por cinco pessoas que mal sabiam da verdade. Quanta formalidade para entendermos que aquilo não vale nada. É um papel, mera soma de cuspe e caneta e árvores mortas. Comparado ao olhar na cama, ao abraço em que o outro se acomoda perfeitamente nos seus braços e, quentinho, te ouve dormir. O que seria da poesia se tudo precisasse ser tão explorado por todos, tão claro paraomundointeiro, tão explícito, que não haveria nada de íntimo para colocar em entrelinhas. A intimidade que se constrói estando com a pessoa amada não diz respeito a muitos. Só quem ama sabe porque, e como, ama. Só quem é amado sabe reconhecer o amor nos gestos menos amorosos.

Prefiro me transformar na despistada sem glamour, sem faixa de eu te amo, sem flores na recepção, sem violinos na despedida.

Talvez eu prefira, mesmo, a autenticidade do telefone desligado na cara e do beijo na madrugada, de olhos fechados, sem ver teu rosto, mas sabendo que ele me olha mesmo sem ver.

Friday, October 17, 2008

fora de quadro

deixei o teu bolo em versos de lado
pra saber o que seria eu
do lado de lá
do espelho da cozinha

Thursday, July 10, 2008

Orfeu + Eurídice

Silencia as sereias que te silenciam
com ou sem
lira.

Aposta nisso e te vira;
há mais música no silêncio
do que pode ouvir.

Pressente a lira calada
em ti.

Pega o vulto e dança
a dança dos perdidos
que sofrem pelo intocável.

O mistério não é o canto da sereia,
e sim a pausa.

Guarda tua estátua de sal
e toma pra ti apenas
o que é suficiente:
aquele suspiro.

Wednesday, July 09, 2008

Lição: silêncio

"Mantinha os olhos fixos nos lábios de Hervé Joncour, como se fossem as últimas linhas de uma carta de adeus."

(de Alessandro Baricco, em Seda)

Monday, May 05, 2008

japão

Chove nas ruas desertas
do centro que é
periferia.
Do lado de dentro
há violinos e suspiros
e stimmung.

O adágio ficou pra trás
sem ser interrompido.
Há som no silêncio
aparente, meu bem.

Percebo o novo desejo:
um conjunto de chá -
louça chinesa -
bem aristocrático
num dia de frio
em nossa lareira.

Wednesday, April 30, 2008

lareira

a falta do olhar em mim preenche
um espaço, que traz em si
uma dúvida.

não há ausência na falta –
ele disse lá atrás e eu confirmo:
ela é cheia de conteúdos que
exaltam o vazio decrescente
de um conhecimento inato.

o frio já chegou, o quente
do quarto ainda existe
pra provar que na falta existe aconchego.

de dentro pra fora as faltas
vão ocupando um espaço
inverso àquele que um dia foi a origem
do receio de ir.

da janela inclinada é possível ver
que amanhã pode fazer um lindo
novo dia.

Friday, April 18, 2008

quatro

trivial e mágico,
como bolinhas de sabão.

Tuesday, March 18, 2008

Não-diário roubado

15 de janeiro

o cavalo marinho me olha dormir
e é com ele que eu sonho.

18 de março

três meses de sonhos
e sonos.

Sunday, February 17, 2008

perdi a memória
no piscar de olhos
da boneca de porcelana.

Thursday, December 20, 2007

Branco

encontrei, dissonantes,
as minhas palavras perdidas
perfeitamente ordenadas

chego mais perto
educo o silêncio calado em mim
exponho o imprevisível
gostar a partir do receio
de ir

me dá colo
que eu calo o futuro pranto
dos teus olhos de marfim