um bom café na tarde
de coador
sem qualquer glamour
não-expresso
na delícia de ser simples
numa rede que enxerga,
de longe,
prédios imensos
com janelinhas
atravancadas de dor.
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Thursday, October 16, 2008
Monday, May 05, 2008
japão
Chove nas ruas desertas
do centro que é
periferia.
Do lado de dentro
há violinos e suspiros
e stimmung.
O adágio ficou pra trás
sem ser interrompido.
Há som no silêncio
aparente, meu bem.
Percebo o novo desejo:
um conjunto de chá -
louça chinesa -
bem aristocrático
num dia de frio
em nossa lareira.
do centro que é
periferia.
Do lado de dentro
há violinos e suspiros
e stimmung.
O adágio ficou pra trás
sem ser interrompido.
Há som no silêncio
aparente, meu bem.
Percebo o novo desejo:
um conjunto de chá -
louça chinesa -
bem aristocrático
num dia de frio
em nossa lareira.
Wednesday, April 30, 2008
lareira
a falta do olhar em mim preenche
um espaço, que traz em si
uma dúvida.
não há ausência na falta –
ele disse lá atrás e eu confirmo:
ela é cheia de conteúdos que
exaltam o vazio decrescente
de um conhecimento inato.
o frio já chegou, o quente
do quarto ainda existe
pra provar que na falta existe aconchego.
de dentro pra fora as faltas
vão ocupando um espaço
inverso àquele que um dia foi a origem
do receio de ir.
da janela inclinada é possível ver
que amanhã pode fazer um lindo
novo dia.
um espaço, que traz em si
uma dúvida.
não há ausência na falta –
ele disse lá atrás e eu confirmo:
ela é cheia de conteúdos que
exaltam o vazio decrescente
de um conhecimento inato.
o frio já chegou, o quente
do quarto ainda existe
pra provar que na falta existe aconchego.
de dentro pra fora as faltas
vão ocupando um espaço
inverso àquele que um dia foi a origem
do receio de ir.
da janela inclinada é possível ver
que amanhã pode fazer um lindo
novo dia.
Tuesday, March 18, 2008
Não-diário roubado
15 de janeiro
o cavalo marinho me olha dormir
e é com ele que eu sonho.
18 de março
três meses de sonhos
e sonos.
o cavalo marinho me olha dormir
e é com ele que eu sonho.
18 de março
três meses de sonhos
e sonos.
Saturday, December 22, 2007
Realejo na Vila Madalena
"SORTE - Fostes amável para com todos, e por esse motivo tivesses muitos desgostos que foram causa de magoar teu coração. Porém com o decorrer dos dias tudo mudará. Não desanimes nunca. Confia na Estrela do teu nascimento que irá surpreender com uma notícia agradável. Há uma pessoa que segue teus passos, porém em silêncio. Esta pessoa há de fazer-te muito feliz e dedicar-te-á muito amor, tal como sonhas no teu pensar. Serás mãe carinhosa de 3 lindos anjos que hão de coroar-te de felicidade. Terás sorte na Loteria com o número 14111."
Thursday, December 20, 2007
Branco
encontrei, dissonantes,
as minhas palavras perdidas
perfeitamente ordenadas
chego mais perto
educo o silêncio calado em mim
exponho o imprevisível
gostar a partir do receio
de ir
me dá colo
que eu calo o futuro pranto
dos teus olhos de marfim
as minhas palavras perdidas
perfeitamente ordenadas
chego mais perto
educo o silêncio calado em mim
exponho o imprevisível
gostar a partir do receio
de ir
me dá colo
que eu calo o futuro pranto
dos teus olhos de marfim
Friday, November 23, 2007
Rio, 18 de novembro de 2007. Santos Dumont.
Anoitece azulado o Rio. Na pista, luzes vermelhas piscam piscam piscam enquanto procedimentos de decolagem são feitos. Há maresia em mim. Carrego dentro do avião - será que eles percebem? Domingo de sol depois de dias chuvosos traz a mais óbvia nostalgia no embarque: um caso de melancolia aérea com gostinho de quero-mais.
Wednesday, November 14, 2007
Um bilhete em setembro
"(...)Apesar da ausência, há cores. Em mim, há cores quando penso em você. As cores sobrepõem-se à brancura, ao amargo da distância, à lentidão do tempo poético em volta do cronológico. Ver o branco me lembra das cores."
Friday, October 26, 2007
SP
O caminho
Brasílio Machado>Marechal Deodoro>Anhangabaú>Nove de Julho>São Gabriel>Santo Amaro
O tempo
Aqui o tempo me engana. Rapidinho, já passou um mês e meio. Uso casaco, e esquenta. Não importa a hora em que eu saia de casa, chego atrasada. E o valor do tempo, esse sim, que me maltrata a todo instante.
A janela
Tudo cinza, a imagem que eu vejo. E lá no fundo, bem onde meus olhos não alcançam mais, uma varanda com gente feliz.
A língua
Não há muitos ruídos de comunicação; o que há é falha proposital. "Vou ao mercado de segunda e de quinta" não me parece a melhor forma de explicar a frequência. Então pergunto: "ah, de segunda a quinta?" ou "ah, às segundas e às quintas?" - prefiro assim, cariocamente.
Os encontros
Sinto falta do Jobi.
O caminho de volta
Santo Amaro>São Gabriel>Nove de Julho>Anhangabaú>Marechal Deodoro>Brasílio Machado
Brasílio Machado>Marechal Deodoro>Anhangabaú>Nove de Julho>São Gabriel>Santo Amaro
O tempo
Aqui o tempo me engana. Rapidinho, já passou um mês e meio. Uso casaco, e esquenta. Não importa a hora em que eu saia de casa, chego atrasada. E o valor do tempo, esse sim, que me maltrata a todo instante.
A janela
Tudo cinza, a imagem que eu vejo. E lá no fundo, bem onde meus olhos não alcançam mais, uma varanda com gente feliz.
A língua
Não há muitos ruídos de comunicação; o que há é falha proposital. "Vou ao mercado de segunda e de quinta" não me parece a melhor forma de explicar a frequência. Então pergunto: "ah, de segunda a quinta?" ou "ah, às segundas e às quintas?" - prefiro assim, cariocamente.
Os encontros
Sinto falta do Jobi.
O caminho de volta
Santo Amaro>São Gabriel>Nove de Julho>Anhangabaú>Marechal Deodoro>Brasílio Machado
Tuesday, October 16, 2007
24 de setembro
a primavera chegou ontem
e eu só me lembro
das folhas cariocas verdes
amarelas vermelhas
as folhas da beta
que eu ziguezagueio
sorrindo de bicicleta
aqui não vejo primavera
nem primaveras
vejo esse dia de hoje
quente e frio
num ritmo que não é meu
com lembranças alheias
sonhos distantes
e claustrofóbicos
a primavera aqui chegou
num domingo-domingo
com dificuldades tais
primavera é sábado
é rio
é amendoeira
é cor
saudade primaveril
folhas de memórias
distantes e minhas.
e eu só me lembro
das folhas cariocas verdes
amarelas vermelhas
as folhas da beta
que eu ziguezagueio
sorrindo de bicicleta
aqui não vejo primavera
nem primaveras
vejo esse dia de hoje
quente e frio
num ritmo que não é meu
com lembranças alheias
sonhos distantes
e claustrofóbicos
a primavera aqui chegou
num domingo-domingo
com dificuldades tais
primavera é sábado
é rio
é amendoeira
é cor
saudade primaveril
folhas de memórias
distantes e minhas.
Wednesday, September 26, 2007
Rascunho
Querida V.
Escrevi um email pra você mais cedo, mas acho que você ainda não leu - uma vez que não respondeu. Então escrevo pra complementá-lo com algumas outras sensações que me vieram durante o dia, enquanto eu digeria as idéias da nossa conversa de ontem. Toda a ironia que existiu na noite de ontem me fez rir muito. Que volta a vida deu em torno dela mesma. E transformou as novas pessoas em pessoas antigas com novos penteados. Riu de mim, o meu destino. Quantos planos eu fiz sobre viver novidades, sobre meu presente-futuro; e daí o passado vem e me surpreende. Mas tudo bem, no fundo achei engraçado e pude me divertir às custas de minha própria frustação neste momento. Hoje há mais motivos pra rir e eu te escrevo com a melhor das intenções otimistas: quero mesmo é dizer que eu sinto muito a sua falta, mas que eu vivo tranqüilamente com a sua ausência. Vou pegar a ausência pra mim, de presente, pra segurar no escuro e sentir você perto de mim, inspirada em C.D.A. Como é bom contar com a poesia nesses momentos, não é? Em todos os momentos, aliás, que besteira achar que é só agora que ela importa. Sempre importa, sempre importou. Importará.
Não precisa responder o email, só ter escrito já me fez bem.
Beijos com saudade assimilada
L.
Escrevi um email pra você mais cedo, mas acho que você ainda não leu - uma vez que não respondeu. Então escrevo pra complementá-lo com algumas outras sensações que me vieram durante o dia, enquanto eu digeria as idéias da nossa conversa de ontem. Toda a ironia que existiu na noite de ontem me fez rir muito. Que volta a vida deu em torno dela mesma. E transformou as novas pessoas em pessoas antigas com novos penteados. Riu de mim, o meu destino. Quantos planos eu fiz sobre viver novidades, sobre meu presente-futuro; e daí o passado vem e me surpreende. Mas tudo bem, no fundo achei engraçado e pude me divertir às custas de minha própria frustação neste momento. Hoje há mais motivos pra rir e eu te escrevo com a melhor das intenções otimistas: quero mesmo é dizer que eu sinto muito a sua falta, mas que eu vivo tranqüilamente com a sua ausência. Vou pegar a ausência pra mim, de presente, pra segurar no escuro e sentir você perto de mim, inspirada em C.D.A. Como é bom contar com a poesia nesses momentos, não é? Em todos os momentos, aliás, que besteira achar que é só agora que ela importa. Sempre importa, sempre importou. Importará.
Não precisa responder o email, só ter escrito já me fez bem.
Beijos com saudade assimilada
L.
Tuesday, September 25, 2007
Corporate
Dentro dos vidros que deixam o frio seguramente lá fora, junto com os aviões que passam quase-pousando, ela se isola da cidade. Fica o zumzumzum de um lado, ela do outro. As contas com muitos dígitos na planilha gritam por realidade mas ela ouve baixinho, baixinho, ao longe. A realidade dela é cada vez mais distante, num tempo passado e desprotegido. Pode ser que ela se acostume à ausência dos elementos vivos, sépticos, cheios de rachaduras e erros de percurso. E no futuro ela olhe tudo isso com grande pavor e pense que a melhor qualidade do presente é a certeza de que um ventinho não vai derrubar as folhas no chão. Elas já estão paralisadas, betamente alaranjadas, naquele chão cheio de lembranças e maresia.
Thursday, September 20, 2007
em 21/08
O diário não é mais escrito, as crianças louras cresceram e deixaram de ser louras, o mirante da Gávea foi desativado. Mas a noite continua longa e Cecilia mantém sua piedosa lírica.
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Tuesday, September 18, 2007
Monday, September 17, 2007
Estação Anhangabaú
O vagão pouco ocupado sinaliza que já é tarde. Ninguém espera pelo trem. Ele vai parando aos poucos, fazendo barulho com seus freios pra chamar a atenção dos possíveis passageiros. A estação está vazia.
De dentro dele, ela percebe o silêncio do lado de fora. O trem pára completamente. As portas abrem e revelam o casal, do lado de fora. Encostados na última pilastra da plataforma, eles se olham com intensidade. Abraçam-se e beijam-se com discrição apaixonada. Sorriem pros próprios sorrisos. Outro trem mais cheio chega e descarrega seus passageiros na pequena ilha formada pelos dois trilhos.
Há barulho; as pessoas movem-se com pressa, as portas fecham, o trem inicia seu novo trajeto. Ela acompanha, como num travelling com trilha incidental, o casal se perder em seus olhares, alheios à tudo, dentro do enquadramento das janelas sujas. Os cabelos brancos se destacam no meio da multidão e ela os vê até entrar no túnel.
O apaixonado casal de idosos continua amando-se na ilha deserta, com direito a palco, público e entrada gratuita no Anhangabaú.
De dentro dele, ela percebe o silêncio do lado de fora. O trem pára completamente. As portas abrem e revelam o casal, do lado de fora. Encostados na última pilastra da plataforma, eles se olham com intensidade. Abraçam-se e beijam-se com discrição apaixonada. Sorriem pros próprios sorrisos. Outro trem mais cheio chega e descarrega seus passageiros na pequena ilha formada pelos dois trilhos.
Há barulho; as pessoas movem-se com pressa, as portas fecham, o trem inicia seu novo trajeto. Ela acompanha, como num travelling com trilha incidental, o casal se perder em seus olhares, alheios à tudo, dentro do enquadramento das janelas sujas. Os cabelos brancos se destacam no meio da multidão e ela os vê até entrar no túnel.
O apaixonado casal de idosos continua amando-se na ilha deserta, com direito a palco, público e entrada gratuita no Anhangabaú.
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