"Estava consciente de que, ‘quanto tudo tiver sido dito, tudo ficará por dizer, sempre restará tudo a dizer‘ - em outras palavras, é o dizer que importa, não o dito -, isso que eu tinha escrito me interessa muito menos do que aquilo que poderia vir a escrever em seguida. Acho que isso é verdade para todo escrevedor/escritor."
de André Gorz, em "Carta a D."
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Wednesday, July 23, 2008
Tuesday, July 22, 2008
Revelação
"Somos mortais porque vivemos no passado e no futuro – porque lembramos um tempo em que não existíamos e antevemos um tempo em que estaremos mortos. Aqueles versos chegaram a mim através de sua música. Eu pensava que a linguagem fosse um modo de dizer as coisas, de externar queixas, de dizer que se estava feliz ou triste etc. Mas quando escutei aqueles versos (e os continuo estudando, em certo sentido, desde então), soube que a linguagem podia também ser música e paixão. E assim me foi revelada."
(Jorge Luis Borges, em "Esse ofício do verso")
(Jorge Luis Borges, em "Esse ofício do verso")
Friday, April 18, 2008
Thursday, April 10, 2008
de verdade
"After six months or so she gave in and married him without reciprocating love but devotedly, honestly, determined to give her full share and try hard to give even more. They were both capable of compassion and gentleness. When they made love they no longer hurt each other but strove to be attentive and generous. Teaching and learning. Getting close. Not pretending."
TO KNOW A WOMAN, de Amós Oz
TO KNOW A WOMAN, de Amós Oz
heights
Me perdi no teu domínio da língua
que me domina
como você
me usa como advérbio
pra determinar tempo curto
e passado.
que me domina
como você
me usa como advérbio
pra determinar tempo curto
e passado.
Wednesday, January 16, 2008
Clichê
Ela era um clichê. Enquanto ouvia a Primavera de Vivaldi e encenava mentalmente um longo plano-sequência em que estalava os dedos, em frente ao laptop, e os mexia como um pianista e suas articulações. Que grande idéia precisa vir, que grande texto sairá dessas pontas de dedos com unhas escuras decadentemente descascadas. Esse seria o subtexto. Mas o texto seria outro.
“O que fazer quando se tem vontade mas não se tem idéia?”
Há muito mais idéias em mim do que mim nas minhas idéias, ela pensaria se deixasse espaço para trocas despreocupadas de pronomes oblíquos por pessoais. Fazia tempo que não usava esses termos. Talvez nem lembrasse mais deles. Talvez estivessem errados.
O clichê se manifesta de diversas formas mas o mais claro, para ela, é a falta de foco. Se fosse mais corajosa, tomaria uma dose de whiskie ainda vestindo a camisola de florzinha que ganhou da avó no Natal. Pegaria um cigarro de filtro amarelo e se sentiria uma prima distante de Byron. Uma prima tropical, que sonha com grandes gestos românticos, com a morte na juventude, com a fama póstuma. Mas já é tarde. Já é velha pra morrer cedo.
Vivaldi fica em segundo plano no momento em que os carros buzinam na rua e ela vai até a janela olhar o que acontece. Um engarrafamento. Um simples engarrafamento acontece na porta de seu prédio, a partir de uma moça de carro azul metálico que tenta fazer uma baliza e impede que os outros carros passem no sinal verde. O sinal fecha. Os carros buzinam, demonstram irritação os motoristas. Vivaldi aumenta o volume – não literalmente, é claro. O adágio do começo do parágrafo acaba e agora um andante passa a ser ouvido até pelas buzinas. Há todo um descontrole. Buzina em forma de corneta, parece.
Há corneta em Vivaldi? Violinos, há. Aos montes, as cordas acordam e gritam a resposta. Bobinha, nem sabe nada de música e fica tentando classificar o tom da buzina.
A camisola florida sai da janela, e acende um cigarro fictício que só existe no plano-sequência. Na realidade não entra cigarro no quarto. Odeia o cheiro de cigarro dentro de um lugar fechado. Acha chato pensar isso, muda de assunto porque o fluxo do pensamento é seu e nada pode interferir a sua vontade de ser interessante. O copo de whiskie já esvaziou, porque houve um corte e o plano-sequência acabou. Uma série de pequenos planos próximos, bem fechados, mostram suas unhas descascadas e a fumaça de cigarro em cima do teclado branco já muito sujo. Contra-baixo marca a montagem. Uma nota, um corte. Uma nota, um corte. Planos rápidos, clima montado. É facil criar clima através da montagem, ela sempre diz.
Tenta acompanhar o ritmo da música nas pontas dos dedos nas teclas com letras que imagina serem notas musicais. Palavras são notas, são música nos ouvidos dela, porque escrever é também ouvir. Ouve-se a sua própria voz lendo as palavras que inventa, ao mesmo tempo em que elas são inventadas. Como se a mente soprasse pros dedos as palavras, sussurrasse no pé do ouvido dos dedos, como se revelasse uma senha secreta, piano. Piano entra.
Há uma ruptura na peça. Ou no arquivo digital em que a peça está inserida e um silêncio toma conta do quarto.
Comove-se com o silêncio.
Em todos os níveis, sempre. O silêncio é uma pausa que a ensurdece porque nele cabe tudo e não cabe nada. Há sempre espaço faltando e espaço sobrando no silêncio. Há sempre uma promessa que está por vir. Há sempre uma decepção. O silêncio a acompanha no ritmo dos seus dedos. O silêncio é dela. Estala os dedos, sem pressa, ajeita a camisola, coça o olho direito que está ressecado por causa da fumaça do cigarro aceso dentro do quarto fechado. Há uma vocação para a depressão que a deixa irritada. Gosta de um drama, de uma cena. O silêncio privilegia o drama. Na comédia é preciso que haja a risada, senão fica sem saber se está agradando o público. O silêncio no drama é aplauso. É aprovação. Tosses, pigarros e ruídos de cadeiras velhas são a glória para o drama. Desconforto. Silêncio e desconforto. Não entende porque pensa agora em teatro. Foi parar no teatro a partir de quê, mesmo? Não compreende como chegou ali. Antes, quando pensava em silêncio, vinha a imagem de uma biblioteca imensa, cheia de estantes de madeira escura, coberta de edições encadernadas de belos livros antigos. Daqueles com letrinhas douradas na lombada. Aqueles que a gente chama de livro. Quando pensa em livro, na palavra livro, no objeto livro, pensa nessas lombadas. Há uma magnitude diferente. Livro é aquilo. Os romances que lê todos os dias são outra coisa, são desapegados da mítica dos livros, são meros produtos de perfumaria intelectual.
Tosse. Tosse três vezes. Desconforto ou excesso de fumo fictício?
O primeiro “tosse” era substantivo. O segundo, verbo. Deu pra entender? Quis deixar o duplo sentido. Será uma repetição do substantivo ou terá sido uma elipse de pessoa? Poderia dizer “ela tosse”. Mas prefere assim, porque a música a deixou confusa por uns instantes e a porta se abriu e deu pra ouvir o Jornal Hoje na televisão da sala. E a tosse parou, talvez por causa do susto, como um soluço.
“É o meu primeiro romance” – a personagem falou. E foi lindo, porque é ao mesmo tempo o primeiro romance que ela escreveu, uma vez que o começou quando ainda era uma estudante de enfermagem na guerra, mas também porque foi a primeira história que construiu, a partir de uma observação equivocada sobre fatos que ocorreram num verão quando tinha onze anos. Criar uma história aos onze anos e a publicar aos setenta e sete deve ser um alívio e um horror. Se ainda fantasiasse com o plano-seqüência, não teria deixado a trilha sonora mudar como agora. E se realmente vivesse um clichê interminável, ouviria uma velha vitrola e o disco arranharia e voltaria ao adágio do momento em que o carro buzinou e ela levantou com a camisola florida.
Mas a realidade é cruel. Já acabou o Outono de Vivaldi. E a próxima faixa, a que toca agora, ao mesmo tempo em que ela ouve num volume muito baixinho as palavras sussurradas na ponta dos dedos, é Someone to Watch Over Me. Quase não as ouve mais, só parte delas, faz um grande esforço pra ouvir mas a mente está rouca, cansada, emudecida.
Silêncio. Tosse.
“O que fazer quando se tem vontade mas não se tem idéia?”
Há muito mais idéias em mim do que mim nas minhas idéias, ela pensaria se deixasse espaço para trocas despreocupadas de pronomes oblíquos por pessoais. Fazia tempo que não usava esses termos. Talvez nem lembrasse mais deles. Talvez estivessem errados.
O clichê se manifesta de diversas formas mas o mais claro, para ela, é a falta de foco. Se fosse mais corajosa, tomaria uma dose de whiskie ainda vestindo a camisola de florzinha que ganhou da avó no Natal. Pegaria um cigarro de filtro amarelo e se sentiria uma prima distante de Byron. Uma prima tropical, que sonha com grandes gestos românticos, com a morte na juventude, com a fama póstuma. Mas já é tarde. Já é velha pra morrer cedo.
Vivaldi fica em segundo plano no momento em que os carros buzinam na rua e ela vai até a janela olhar o que acontece. Um engarrafamento. Um simples engarrafamento acontece na porta de seu prédio, a partir de uma moça de carro azul metálico que tenta fazer uma baliza e impede que os outros carros passem no sinal verde. O sinal fecha. Os carros buzinam, demonstram irritação os motoristas. Vivaldi aumenta o volume – não literalmente, é claro. O adágio do começo do parágrafo acaba e agora um andante passa a ser ouvido até pelas buzinas. Há todo um descontrole. Buzina em forma de corneta, parece.
Há corneta em Vivaldi? Violinos, há. Aos montes, as cordas acordam e gritam a resposta. Bobinha, nem sabe nada de música e fica tentando classificar o tom da buzina.
A camisola florida sai da janela, e acende um cigarro fictício que só existe no plano-sequência. Na realidade não entra cigarro no quarto. Odeia o cheiro de cigarro dentro de um lugar fechado. Acha chato pensar isso, muda de assunto porque o fluxo do pensamento é seu e nada pode interferir a sua vontade de ser interessante. O copo de whiskie já esvaziou, porque houve um corte e o plano-sequência acabou. Uma série de pequenos planos próximos, bem fechados, mostram suas unhas descascadas e a fumaça de cigarro em cima do teclado branco já muito sujo. Contra-baixo marca a montagem. Uma nota, um corte. Uma nota, um corte. Planos rápidos, clima montado. É facil criar clima através da montagem, ela sempre diz.
Tenta acompanhar o ritmo da música nas pontas dos dedos nas teclas com letras que imagina serem notas musicais. Palavras são notas, são música nos ouvidos dela, porque escrever é também ouvir. Ouve-se a sua própria voz lendo as palavras que inventa, ao mesmo tempo em que elas são inventadas. Como se a mente soprasse pros dedos as palavras, sussurrasse no pé do ouvido dos dedos, como se revelasse uma senha secreta, piano. Piano entra.
Há uma ruptura na peça. Ou no arquivo digital em que a peça está inserida e um silêncio toma conta do quarto.
Comove-se com o silêncio.
Em todos os níveis, sempre. O silêncio é uma pausa que a ensurdece porque nele cabe tudo e não cabe nada. Há sempre espaço faltando e espaço sobrando no silêncio. Há sempre uma promessa que está por vir. Há sempre uma decepção. O silêncio a acompanha no ritmo dos seus dedos. O silêncio é dela. Estala os dedos, sem pressa, ajeita a camisola, coça o olho direito que está ressecado por causa da fumaça do cigarro aceso dentro do quarto fechado. Há uma vocação para a depressão que a deixa irritada. Gosta de um drama, de uma cena. O silêncio privilegia o drama. Na comédia é preciso que haja a risada, senão fica sem saber se está agradando o público. O silêncio no drama é aplauso. É aprovação. Tosses, pigarros e ruídos de cadeiras velhas são a glória para o drama. Desconforto. Silêncio e desconforto. Não entende porque pensa agora em teatro. Foi parar no teatro a partir de quê, mesmo? Não compreende como chegou ali. Antes, quando pensava em silêncio, vinha a imagem de uma biblioteca imensa, cheia de estantes de madeira escura, coberta de edições encadernadas de belos livros antigos. Daqueles com letrinhas douradas na lombada. Aqueles que a gente chama de livro. Quando pensa em livro, na palavra livro, no objeto livro, pensa nessas lombadas. Há uma magnitude diferente. Livro é aquilo. Os romances que lê todos os dias são outra coisa, são desapegados da mítica dos livros, são meros produtos de perfumaria intelectual.
Tosse. Tosse três vezes. Desconforto ou excesso de fumo fictício?
O primeiro “tosse” era substantivo. O segundo, verbo. Deu pra entender? Quis deixar o duplo sentido. Será uma repetição do substantivo ou terá sido uma elipse de pessoa? Poderia dizer “ela tosse”. Mas prefere assim, porque a música a deixou confusa por uns instantes e a porta se abriu e deu pra ouvir o Jornal Hoje na televisão da sala. E a tosse parou, talvez por causa do susto, como um soluço.
“É o meu primeiro romance” – a personagem falou. E foi lindo, porque é ao mesmo tempo o primeiro romance que ela escreveu, uma vez que o começou quando ainda era uma estudante de enfermagem na guerra, mas também porque foi a primeira história que construiu, a partir de uma observação equivocada sobre fatos que ocorreram num verão quando tinha onze anos. Criar uma história aos onze anos e a publicar aos setenta e sete deve ser um alívio e um horror. Se ainda fantasiasse com o plano-seqüência, não teria deixado a trilha sonora mudar como agora. E se realmente vivesse um clichê interminável, ouviria uma velha vitrola e o disco arranharia e voltaria ao adágio do momento em que o carro buzinou e ela levantou com a camisola florida.
Mas a realidade é cruel. Já acabou o Outono de Vivaldi. E a próxima faixa, a que toca agora, ao mesmo tempo em que ela ouve num volume muito baixinho as palavras sussurradas na ponta dos dedos, é Someone to Watch Over Me. Quase não as ouve mais, só parte delas, faz um grande esforço pra ouvir mas a mente está rouca, cansada, emudecida.
Silêncio. Tosse.
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Friday, September 28, 2007
Allegro
Um dia eu chego lá.
"Allegro (italiano para alegre) é um andamento musical leve e ligeiro, mais rápido que o Allegretto e mais lento que o Presto. Nos metrônomos, o Allegro costuma situar-se entre 120 e 168 batidas por minuto."
"Allegro (italiano para alegre) é um andamento musical leve e ligeiro, mais rápido que o Allegretto e mais lento que o Presto. Nos metrônomos, o Allegro costuma situar-se entre 120 e 168 batidas por minuto."
Adagio
Tem que ir aos poucos, pianinho, num ritmo lento mas em movimento. Essa é a melhor forma; dizem.
Sunday, August 05, 2007
Dia
Cheia de domingos-domingo, ela ouve Tom Waits enquanto tenta estabelecer sentido nas palavras. Sente-se incompleta. O piano marca mas é o contra-baixo que a leva até ele. Procura a saída do sonho que construiu- como a moça cantou, antes de revelar o cansaço de limpar a sujeira dele. A fumaça fechada no bar já matou as flores há muito tempo mas ela ainda pergunta se o seu fim estaria mesmo próximo, naquelas cortinas de veludo vermelho cheias de histórias veladas que esperam para velar a dela também. Talvez já tenha acabado, uma vez que o passado não a assusta; é parte integrante dela, assim como a última palavra que escreveu. O ponto final ainda é futuro, ela sente como se tivesse uma última certeza. Quando os domingos-domingo passarem, quando ela se curar de sua depressão dominical aguda, será que continuará sentindo o grave vibrar da corda levantando-a da cama, adocicando o gosto da solidão? Domingos-domingo foram criados por ela, são seu método, sua satisfação gloriosa, sua fuga consciente ao interior das palavras perdidas, das emoções imprecisas, da inconseqüente fragmentação estabelecida como fundamento. Não há mágica, golpe de mestre, macumba, esquema, jeitinho. Não há segunda-feira que resista à ausência de domingos-domingo.
Monday, July 30, 2007
tese
ainda há peixes na Lagoa,
ela constata ao aumentar
os beatles no ouvido
e alimentar a nostalgia.
sol de junho -
timeless june –
revela a árvore
solitária
e misteriosa
da Pedra da Gávea.
o pier mantém o tempo
no passado
naquele tempo
em que não existia
beatles em seu ouvido
mas já existiam
peixes na Lagoa.
ela constata ao aumentar
os beatles no ouvido
e alimentar a nostalgia.
sol de junho -
timeless june –
revela a árvore
solitária
e misteriosa
da Pedra da Gávea.
o pier mantém o tempo
no passado
naquele tempo
em que não existia
beatles em seu ouvido
mas já existiam
peixes na Lagoa.
antítese
o menino pega a bicicleta
encaixa a guitarra no suporte lateral
e sai pedalando
olhando o canal
enquanto fantasio
com esse futuro
o menino pedala
e eu vejo
a minha juventude
passada.
sorrio honestamente -
o menino olha pra trás,
sorrindo e pedalando,
tão livre no seu presente.
encaixa a guitarra no suporte lateral
e sai pedalando
olhando o canal
enquanto fantasio
com esse futuro
o menino pedala
e eu vejo
a minha juventude
passada.
sorrio honestamente -
o menino olha pra trás,
sorrindo e pedalando,
tão livre no seu presente.
síntese
na fila do mercadinho, a senhorinha fala
hoje é domingo
você é jovem
(olha o relógio)
e ainda precisa lavar o cabelo.
hoje é domingo
você é jovem
(olha o relógio)
e ainda precisa lavar o cabelo.
Wednesday, May 30, 2007
Desencontro
Me disse que queria me ver. Ou era ter e eu nem notei? Queria estar comigo, bater um papo, tomar um café. Fazer filhos, talvez. Riu. Sequer entendi o resto, tão ocupada em ouvir as crianças chorarem no nosso futuro familiar.
Encontro
Ele é um gato. Poderia chamá-lo de AS e escrever linhas românticas e sem fundamento. Roubaria idéias de JA, WW, TJ e, claro, AC. Faria declarações de amor ao desconhecido AS, em nome da poesia, apoiada em Platão – a quem jamais chamaria de P. Relembraria nosso café-da-manhã no Garcia & Rodrigues (GR?), em mesas separadas mas com olhares encontrados. AS lia os jornais do dia, prestava atenção na minha conversa e no meu decote com sorriso maroto e sacana. AS sabe olhar um decote com polidez e interesse. Furtou sorrisos meus, que eu disfarçava fingindo que eram pra minha interlocutora AM, que mal percebeu meu flerte. Muito discreto ou até invisível foi nosso encontro. AS e eu esperamos o momento certo e depois o deixamos passar pra podermos viver desta possibilidade duvidosa que foi o nosso caso de amor. LG e AS, eternamente separados pelo rigor de nossas próprias construções sobre o amor à primeira vista.
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Tuesday, May 29, 2007
Diário público
Naquele lugar, só a gente sabia ser feliz. Era fácil, até. Quatro paredes, uma cama, tantos sonhos e realidades e aquele janelão que trazia as coisas lá de fora. Nada perturbava a perfeição. O calor não atrapalhava. Nem o Natal, que chegava. Nem o piano do vizinho, tecla por tecla. Nem o fim iminente. Nem o amor. Nada, nada, nada. Os sorrisos eram muitos, os arrepios tão naturais como o quente vento noturno e a gente mal sabia que aquele lugar estava fadado ao nosso sucesso. Só nosso. As lembranças do quarto nos pertencem tanto quanto os segredos que criamos naqueles lençóis, ao ouvirmos o dó-re-mi solitário e distante, ao nos perdermos sem medo do fim, ao bater do relógio. O tempo parou num instante que durou um verão inteiro. A gente só sabia ser feliz naquele lugar, meu bem.
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