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Wednesday, January 12, 2011

aquário

distraída, encaixei meu ouvido
no lugar errado.

minha sombra aponta pra outro
lado - onde o mesmo sol nasce.

(a vontade de esquecer o susto
de ter vislumbrado a quase-sensação
mais uma vez.)

refleti tua imagem no meu espelho
mas foi insuficiente;
o teu reflexo é na água,
impreciso, movido a maré,
belo narciso.

Friday, May 14, 2010

eu já fugi pra dentro

tantas vezes que
nem lembro mais.

me assombrei, retirei
tudo de fora e
enfurnei como quem
guarda o que não pode
perder.

fugi pra dentro de você
uma vez por dia
durante todos eles,
eu fugia.

como quem guarda
o que não pode
perder.

a fuga maior, a sua,
é pra fora.

um risco inspira
uma fuga
que é um risco
de caneta
num passaporte
qualquer
em um aeroporto
cheio de fugitivos
e de encontrados.

a fuga futura já é
presente,
talvez seja até
passada;
a fuga já nasce
fugaz.

Tuesday, May 05, 2009

Stichwort

no proscênio há respiro
suficiente para a falta
que o suspiro traz.

não se pode levar tudo pra boca de cena.

certas calhas têm lugar
marcado
talhado
cravado
no fundo do palco.

sem elas, o mergulho superficial
é supremacia anônima.

Friday, February 27, 2009

nostalgie



quero sentir nostalgia
dessa sua memória
que não tenho
mas que levou parte
de mim.

[Henri Matisse "Dança"]

eu não sabia que você existia

até sonhar
com asas nos pés.

traduzi,
en silence,
verso por verso

do poema
inscrito na parede
do bar da esquina

lá, onde eu não
freqüentei,
te vi sorrir
e girar na dança
só sua

mais um carrossel -
carousel -
e não sinto mais
meus pés-pieds.

Thursday, January 29, 2009

"I wondered if a memory is something you have or something you've lost."

(em "A Outra", de Woody Allen, 1988)

Tuesday, October 28, 2008

subtexto

Sempre queremos ter todas as evidências da posição que ocupamos. Sempre. Carimbo na folha que diz "sou especial", com assinatura registrada em cartório e cuspe para comprovar, no amassado do papel, que o documento foi revisado por cinco pessoas que mal sabiam da verdade. Quanta formalidade para entendermos que aquilo não vale nada. É um papel, mera soma de cuspe e caneta e árvores mortas. Comparado ao olhar na cama, ao abraço em que o outro se acomoda perfeitamente nos seus braços e, quentinho, te ouve dormir. O que seria da poesia se tudo precisasse ser tão explorado por todos, tão claro paraomundointeiro, tão explícito, que não haveria nada de íntimo para colocar em entrelinhas. A intimidade que se constrói estando com a pessoa amada não diz respeito a muitos. Só quem ama sabe porque, e como, ama. Só quem é amado sabe reconhecer o amor nos gestos menos amorosos.

Prefiro me transformar na despistada sem glamour, sem faixa de eu te amo, sem flores na recepção, sem violinos na despedida.

Talvez eu prefira, mesmo, a autenticidade do telefone desligado na cara e do beijo na madrugada, de olhos fechados, sem ver teu rosto, mas sabendo que ele me olha mesmo sem ver.

Friday, October 17, 2008

fora de quadro

deixei o teu bolo em versos de lado
pra saber o que seria eu
do lado de lá
do espelho da cozinha

Thursday, October 16, 2008

rosário

um bom café na tarde
de coador
sem qualquer glamour
não-expresso
na delícia de ser simples
numa rede que enxerga,
de longe,
prédios imensos
com janelinhas
atravancadas de dor.

Thursday, September 18, 2008

cegueira

a fôrma de cego,
armação de óculos sem aro,
transforma a forma
em ritual.

faz do vinho mera
lembrança
de acidez roxa
e amoral.

Wednesday, July 23, 2008

O restante

"Estava consciente de que, ‘quanto tudo tiver sido dito, tudo ficará por dizer, sempre restará tudo a dizer‘ - em outras palavras, é o dizer que importa, não o dito -, isso que eu tinha escrito me interessa muito menos do que aquilo que poderia vir a escrever em seguida. Acho que isso é verdade para todo escrevedor/escritor."

de André Gorz, em "Carta a D."

Thursday, July 10, 2008

Orfeu + Eurídice

Silencia as sereias que te silenciam
com ou sem
lira.

Aposta nisso e te vira;
há mais música no silêncio
do que pode ouvir.

Pressente a lira calada
em ti.

Pega o vulto e dança
a dança dos perdidos
que sofrem pelo intocável.

O mistério não é o canto da sereia,
e sim a pausa.

Guarda tua estátua de sal
e toma pra ti apenas
o que é suficiente:
aquele suspiro.

Wednesday, July 09, 2008

Lição: silêncio

"Mantinha os olhos fixos nos lábios de Hervé Joncour, como se fossem as últimas linhas de uma carta de adeus."

(de Alessandro Baricco, em Seda)

Monday, May 05, 2008

japão

Chove nas ruas desertas
do centro que é
periferia.
Do lado de dentro
há violinos e suspiros
e stimmung.

O adágio ficou pra trás
sem ser interrompido.
Há som no silêncio
aparente, meu bem.

Percebo o novo desejo:
um conjunto de chá -
louça chinesa -
bem aristocrático
num dia de frio
em nossa lareira.

Wednesday, April 30, 2008

Fala entupida

You speak a language that I understand not.

"The Winter's Tale", de William Shakespeare.

lareira

a falta do olhar em mim preenche
um espaço, que traz em si
uma dúvida.

não há ausência na falta –
ele disse lá atrás e eu confirmo:
ela é cheia de conteúdos que
exaltam o vazio decrescente
de um conhecimento inato.

o frio já chegou, o quente
do quarto ainda existe
pra provar que na falta existe aconchego.

de dentro pra fora as faltas
vão ocupando um espaço
inverso àquele que um dia foi a origem
do receio de ir.

da janela inclinada é possível ver
que amanhã pode fazer um lindo
novo dia.

Friday, April 18, 2008

quatro

trivial e mágico,
como bolinhas de sabão.

Monday, April 14, 2008

a questão

“Yet we cannot live our daily lives in a realm of pure ideas, cocooned from sense-experience. The question is not, How can we keep the imagination pure, protected from the onslaughts of reality? The question has to be, Can we find a way for the two to coexist?”

DISGRACE, de J.M. Coetzee

Thursday, April 10, 2008

de verdade

"After six months or so she gave in and married him without reciprocating love but devotedly, honestly, determined to give her full share and try hard to give even more. They were both capable of compassion and gentleness. When they made love they no longer hurt each other but strove to be attentive and generous. Teaching and learning. Getting close. Not pretending."

TO KNOW A WOMAN, de Amós Oz

Tuesday, March 18, 2008

Não-diário roubado

15 de janeiro

o cavalo marinho me olha dormir
e é com ele que eu sonho.

18 de março

três meses de sonhos
e sonos.