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Monday, December 10, 2007

Roubo de intimidade

Assaltante aborda casal aos beijos e pergunta, depois de avisar que é um assalto: "Vocês são amantes ou são namorados?"

Os dois pensam qual será a resposta correta, enquanto entregam seus pertences de valor.

Monday, September 17, 2007

Estação Anhangabaú

O vagão pouco ocupado sinaliza que já é tarde. Ninguém espera pelo trem. Ele vai parando aos poucos, fazendo barulho com seus freios pra chamar a atenção dos possíveis passageiros. A estação está vazia.

De dentro dele, ela percebe o silêncio do lado de fora. O trem pára completamente. As portas abrem e revelam o casal, do lado de fora. Encostados na última pilastra da plataforma, eles se olham com intensidade. Abraçam-se e beijam-se com discrição apaixonada. Sorriem pros próprios sorrisos. Outro trem mais cheio chega e descarrega seus passageiros na pequena ilha formada pelos dois trilhos.

Há barulho; as pessoas movem-se com pressa, as portas fecham, o trem inicia seu novo trajeto. Ela acompanha, como num travelling com trilha incidental, o casal se perder em seus olhares, alheios à tudo, dentro do enquadramento das janelas sujas. Os cabelos brancos se destacam no meio da multidão e ela os vê até entrar no túnel.

O apaixonado casal de idosos continua amando-se na ilha deserta, com direito a palco, público e entrada gratuita no Anhangabaú.

Monday, July 30, 2007

síntese

na fila do mercadinho, a senhorinha fala
hoje é domingo
você é jovem
(olha o relógio)
e ainda precisa lavar o cabelo.

Wednesday, May 30, 2007

Encontro

Ele é um gato. Poderia chamá-lo de AS e escrever linhas românticas e sem fundamento. Roubaria idéias de JA, WW, TJ e, claro, AC. Faria declarações de amor ao desconhecido AS, em nome da poesia, apoiada em Platão – a quem jamais chamaria de P. Relembraria nosso café-da-manhã no Garcia & Rodrigues (GR?), em mesas separadas mas com olhares encontrados. AS lia os jornais do dia, prestava atenção na minha conversa e no meu decote com sorriso maroto e sacana. AS sabe olhar um decote com polidez e interesse. Furtou sorrisos meus, que eu disfarçava fingindo que eram pra minha interlocutora AM, que mal percebeu meu flerte. Muito discreto ou até invisível foi nosso encontro. AS e eu esperamos o momento certo e depois o deixamos passar pra podermos viver desta possibilidade duvidosa que foi o nosso caso de amor. LG e AS, eternamente separados pelo rigor de nossas próprias construções sobre o amor à primeira vista.