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Friday, May 14, 2010

eu já fugi pra dentro

tantas vezes que
nem lembro mais.

me assombrei, retirei
tudo de fora e
enfurnei como quem
guarda o que não pode
perder.

fugi pra dentro de você
uma vez por dia
durante todos eles,
eu fugia.

como quem guarda
o que não pode
perder.

a fuga maior, a sua,
é pra fora.

um risco inspira
uma fuga
que é um risco
de caneta
num passaporte
qualquer
em um aeroporto
cheio de fugitivos
e de encontrados.

a fuga futura já é
presente,
talvez seja até
passada;
a fuga já nasce
fugaz.

Friday, February 27, 2009

eu não sabia que você existia

até sonhar
com asas nos pés.

traduzi,
en silence,
verso por verso

do poema
inscrito na parede
do bar da esquina

lá, onde eu não
freqüentei,
te vi sorrir
e girar na dança
só sua

mais um carrossel -
carousel -
e não sinto mais
meus pés-pieds.

Tuesday, October 28, 2008

subtexto

Sempre queremos ter todas as evidências da posição que ocupamos. Sempre. Carimbo na folha que diz "sou especial", com assinatura registrada em cartório e cuspe para comprovar, no amassado do papel, que o documento foi revisado por cinco pessoas que mal sabiam da verdade. Quanta formalidade para entendermos que aquilo não vale nada. É um papel, mera soma de cuspe e caneta e árvores mortas. Comparado ao olhar na cama, ao abraço em que o outro se acomoda perfeitamente nos seus braços e, quentinho, te ouve dormir. O que seria da poesia se tudo precisasse ser tão explorado por todos, tão claro paraomundointeiro, tão explícito, que não haveria nada de íntimo para colocar em entrelinhas. A intimidade que se constrói estando com a pessoa amada não diz respeito a muitos. Só quem ama sabe porque, e como, ama. Só quem é amado sabe reconhecer o amor nos gestos menos amorosos.

Prefiro me transformar na despistada sem glamour, sem faixa de eu te amo, sem flores na recepção, sem violinos na despedida.

Talvez eu prefira, mesmo, a autenticidade do telefone desligado na cara e do beijo na madrugada, de olhos fechados, sem ver teu rosto, mas sabendo que ele me olha mesmo sem ver.

Thursday, April 10, 2008

heights

Me perdi no teu domínio da língua
que me domina
como você
me usa como advérbio
pra determinar tempo curto
e passado.

Monday, December 17, 2007

Personagem

Querida L.,

Me acostumei a viver com essa dorzinha, todos os dias, durante muito tempo. E essa dor acabava por suprir minha necessidade de sentir. E eu boicotei outros tipos de dor, ou de emoções variadas, de forma que passei a ser aquela personagem que se mostra através do "brilho", da "graça" e não do que está sentindo de fato. E a presença da dor é quase que um refúgio, né? Acredito nisso, no apego que construímos em relação à dor. Porque ela, muitas vezes, é o que estamos acostumadas a sentir e então é mais simples se relacionar com o que já sabemos lidar. As novas dores são sempre piores, desconhecidas, obscuras. E, talvez, mais dolorosas.

E é por isso que esta é uma carta de despedida. Não preciso mais de você; quero novidade. Sou muito grata - entenda, por favor.

Beijo,
L.

Sunday, August 05, 2007

Dia

Cheia de domingos-domingo, ela ouve Tom Waits enquanto tenta estabelecer sentido nas palavras. Sente-se incompleta. O piano marca mas é o contra-baixo que a leva até ele. Procura a saída do sonho que construiu- como a moça cantou, antes de revelar o cansaço de limpar a sujeira dele. A fumaça fechada no bar já matou as flores há muito tempo mas ela ainda pergunta se o seu fim estaria mesmo próximo, naquelas cortinas de veludo vermelho cheias de histórias veladas que esperam para velar a dela também. Talvez já tenha acabado, uma vez que o passado não a assusta; é parte integrante dela, assim como a última palavra que escreveu. O ponto final ainda é futuro, ela sente como se tivesse uma última certeza. Quando os domingos-domingo passarem, quando ela se curar de sua depressão dominical aguda, será que continuará sentindo o grave vibrar da corda levantando-a da cama, adocicando o gosto da solidão? Domingos-domingo foram criados por ela, são seu método, sua satisfação gloriosa, sua fuga consciente ao interior das palavras perdidas, das emoções imprecisas, da inconseqüente fragmentação estabelecida como fundamento. Não há mágica, golpe de mestre, macumba, esquema, jeitinho. Não há segunda-feira que resista à ausência de domingos-domingo.

Monday, July 30, 2007

síntese

na fila do mercadinho, a senhorinha fala
hoje é domingo
você é jovem
(olha o relógio)
e ainda precisa lavar o cabelo.

Wednesday, May 30, 2007

Encontro

Ele é um gato. Poderia chamá-lo de AS e escrever linhas românticas e sem fundamento. Roubaria idéias de JA, WW, TJ e, claro, AC. Faria declarações de amor ao desconhecido AS, em nome da poesia, apoiada em Platão – a quem jamais chamaria de P. Relembraria nosso café-da-manhã no Garcia & Rodrigues (GR?), em mesas separadas mas com olhares encontrados. AS lia os jornais do dia, prestava atenção na minha conversa e no meu decote com sorriso maroto e sacana. AS sabe olhar um decote com polidez e interesse. Furtou sorrisos meus, que eu disfarçava fingindo que eram pra minha interlocutora AM, que mal percebeu meu flerte. Muito discreto ou até invisível foi nosso encontro. AS e eu esperamos o momento certo e depois o deixamos passar pra podermos viver desta possibilidade duvidosa que foi o nosso caso de amor. LG e AS, eternamente separados pelo rigor de nossas próprias construções sobre o amor à primeira vista.