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Friday, July 25, 2008

"Uma anotação de Kafka, em seu diário, pode resumir meu estado de espírito da época: 'Meu amor por você não ama a si mesmo.' Eu não me amava por amar você."

Mais um trecho de "Carta a D.", de André Gorz.

Wednesday, July 23, 2008

O restante

"Estava consciente de que, ‘quanto tudo tiver sido dito, tudo ficará por dizer, sempre restará tudo a dizer‘ - em outras palavras, é o dizer que importa, não o dito -, isso que eu tinha escrito me interessa muito menos do que aquilo que poderia vir a escrever em seguida. Acho que isso é verdade para todo escrevedor/escritor."

de André Gorz, em "Carta a D."

Friday, January 11, 2008

Resolução

Nota para mim mesma: em 2008, evitar ser acusada por pseudo-criações. Evitar receber emails que envolvam as palavras "produziu essa ficção" - quando não há ficção, só vida real.

Evitar ficções, confusões e relações desnecessárias.

Só as necessárias serão aceitas.

Wednesday, January 02, 2008

Não-diário roubado

1 de novembro

a sala de espera
me ensina
a doce loucura
da espera ativa
na luz encantadora
dos olhos passados.

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dance, magritte, dance
que eu olho com os grandes
que tenho, curiosos,
lembro de você na parede
com a luz novaiorquina
tão rica de lembranças
e suspiros.
agora é aqui,
tua cópia é original
pra mim.



30 de dezembro

O não-diário quase que caiu em desuso
na cidade cinza.
Não há entradas,
só saídas.

A maior saída é ela.

O não-diário retroativo

Pode-se escrever diário
Apenas de memória
Com a lembrança dos dias
Em silêncio?

Se sim:

19 de dezembro

suas palavras de ontem
se fazem presentes e reais
um presente
de Natal
sem fita
com laço.

20 de dezembro

Rumo a um desconhecido
estar em mim.
Doce novidade,
cheia de medos
e vozes efêmeras.

25 de dezembro

a saudade comprova a certeza do que eu quero

30 de dezembro

O ano se despede de mim
com um sorriso sacana
“Pensou que sabia tudo, é?”
Não sei de nada, 2007.
Avisa pro seu amigo 2008
que esse ritmo do fim de ano
foi ótimo
e que surpresas são bem-vindas desde janeiro.
Não deixe pra dezembro, 2008,
por favor.

Obrigada,
L.

Monday, December 17, 2007

Personagem

Querida L.,

Me acostumei a viver com essa dorzinha, todos os dias, durante muito tempo. E essa dor acabava por suprir minha necessidade de sentir. E eu boicotei outros tipos de dor, ou de emoções variadas, de forma que passei a ser aquela personagem que se mostra através do "brilho", da "graça" e não do que está sentindo de fato. E a presença da dor é quase que um refúgio, né? Acredito nisso, no apego que construímos em relação à dor. Porque ela, muitas vezes, é o que estamos acostumadas a sentir e então é mais simples se relacionar com o que já sabemos lidar. As novas dores são sempre piores, desconhecidas, obscuras. E, talvez, mais dolorosas.

E é por isso que esta é uma carta de despedida. Não preciso mais de você; quero novidade. Sou muito grata - entenda, por favor.

Beijo,
L.

Wednesday, November 14, 2007

Um bilhete em setembro

"(...)Apesar da ausência, há cores. Em mim, há cores quando penso em você. As cores sobrepõem-se à brancura, ao amargo da distância, à lentidão do tempo poético em volta do cronológico. Ver o branco me lembra das cores."

Wednesday, September 26, 2007

Rascunho

Querida V.

Escrevi um email pra você mais cedo, mas acho que você ainda não leu - uma vez que não respondeu. Então escrevo pra complementá-lo com algumas outras sensações que me vieram durante o dia, enquanto eu digeria as idéias da nossa conversa de ontem. Toda a ironia que existiu na noite de ontem me fez rir muito. Que volta a vida deu em torno dela mesma. E transformou as novas pessoas em pessoas antigas com novos penteados. Riu de mim, o meu destino. Quantos planos eu fiz sobre viver novidades, sobre meu presente-futuro; e daí o passado vem e me surpreende. Mas tudo bem, no fundo achei engraçado e pude me divertir às custas de minha própria frustação neste momento. Hoje há mais motivos pra rir e eu te escrevo com a melhor das intenções otimistas: quero mesmo é dizer que eu sinto muito a sua falta, mas que eu vivo tranqüilamente com a sua ausência. Vou pegar a ausência pra mim, de presente, pra segurar no escuro e sentir você perto de mim, inspirada em C.D.A. Como é bom contar com a poesia nesses momentos, não é? Em todos os momentos, aliás, que besteira achar que é só agora que ela importa. Sempre importa, sempre importou. Importará.

Não precisa responder o email, só ter escrito já me fez bem.

Beijos com saudade assimilada
L.

Tuesday, May 29, 2007

Diário público

Naquele lugar, só a gente sabia ser feliz. Era fácil, até. Quatro paredes, uma cama, tantos sonhos e realidades e aquele janelão que trazia as coisas lá de fora. Nada perturbava a perfeição. O calor não atrapalhava. Nem o Natal, que chegava. Nem o piano do vizinho, tecla por tecla. Nem o fim iminente. Nem o amor. Nada, nada, nada. Os sorrisos eram muitos, os arrepios tão naturais como o quente vento noturno e a gente mal sabia que aquele lugar estava fadado ao nosso sucesso. Só nosso. As lembranças do quarto nos pertencem tanto quanto os segredos que criamos naqueles lençóis, ao ouvirmos o dó-re-mi solitário e distante, ao nos perdermos sem medo do fim, ao bater do relógio. O tempo parou num instante que durou um verão inteiro. A gente só sabia ser feliz naquele lugar, meu bem.