Cheia de domingos-domingo, ela ouve Tom Waits enquanto tenta estabelecer sentido nas palavras. Sente-se incompleta. O piano marca mas é o contra-baixo que a leva até ele. Procura a saída do sonho que construiu- como a moça cantou, antes de revelar o cansaço de limpar a sujeira dele. A fumaça fechada no bar já matou as flores há muito tempo mas ela ainda pergunta se o seu fim estaria mesmo próximo, naquelas cortinas de veludo vermelho cheias de histórias veladas que esperam para velar a dela também. Talvez já tenha acabado, uma vez que o passado não a assusta; é parte integrante dela, assim como a última palavra que escreveu. O ponto final ainda é futuro, ela sente como se tivesse uma última certeza. Quando os domingos-domingo passarem, quando ela se curar de sua depressão dominical aguda, será que continuará sentindo o grave vibrar da corda levantando-a da cama, adocicando o gosto da solidão? Domingos-domingo foram criados por ela, são seu método, sua satisfação gloriosa, sua fuga consciente ao interior das palavras perdidas, das emoções imprecisas, da inconseqüente fragmentação estabelecida como fundamento. Não há mágica, golpe de mestre, macumba, esquema, jeitinho. Não há segunda-feira que resista à ausência de domingos-domingo.
Sunday, August 05, 2007
Monday, July 30, 2007
tese
ainda há peixes na Lagoa,
ela constata ao aumentar
os beatles no ouvido
e alimentar a nostalgia.
sol de junho -
timeless june –
revela a árvore
solitária
e misteriosa
da Pedra da Gávea.
o pier mantém o tempo
no passado
naquele tempo
em que não existia
beatles em seu ouvido
mas já existiam
peixes na Lagoa.
ela constata ao aumentar
os beatles no ouvido
e alimentar a nostalgia.
sol de junho -
timeless june –
revela a árvore
solitária
e misteriosa
da Pedra da Gávea.
o pier mantém o tempo
no passado
naquele tempo
em que não existia
beatles em seu ouvido
mas já existiam
peixes na Lagoa.
antítese
o menino pega a bicicleta
encaixa a guitarra no suporte lateral
e sai pedalando
olhando o canal
enquanto fantasio
com esse futuro
o menino pedala
e eu vejo
a minha juventude
passada.
sorrio honestamente -
o menino olha pra trás,
sorrindo e pedalando,
tão livre no seu presente.
encaixa a guitarra no suporte lateral
e sai pedalando
olhando o canal
enquanto fantasio
com esse futuro
o menino pedala
e eu vejo
a minha juventude
passada.
sorrio honestamente -
o menino olha pra trás,
sorrindo e pedalando,
tão livre no seu presente.
síntese
na fila do mercadinho, a senhorinha fala
hoje é domingo
você é jovem
(olha o relógio)
e ainda precisa lavar o cabelo.
hoje é domingo
você é jovem
(olha o relógio)
e ainda precisa lavar o cabelo.
Saturday, June 09, 2007
bloquinho de anotações
enquanto a neblina encobrir o morro, ah, eu posso ser feliz nessa terra cinza. e esperar horas no aeroporto sem teto olhando o céu através do vidro novo que deixa a luz da cidade entrar. e quando o azul encontrar meus olhos, direi "olha o azul!" apontando pra um lugar em que nada se vê. eu vejo você. vejo a ausência de reflexo na água distante e escura. vejo o silêncio impresso nas pausas. vejo o hiato que há na saída. e daí posso ir, sabendo que tudo o que não está continuará não-estando por aí. enquanto a neblina encobrir, eu estarei seguramente coberta. mantinha quentinha na lembrança, a moça chama um passageiro que não sou eu no auto-falante. desconecta minha memória e eu vejo o tempo passando. é bom esperar vendo o tempo passar devagar. depressa é ruim. o mate já ficou quente, o sol brilhou mais forte, o morro já dá pra ver, o vôo vai sair. tem que pedir o lado direito, se quiser ver a vista linda. eu sempre quero, né. os monumentos de cor azul-cinza, dois irmãos brincando no mar e a música, e a música. o vizinho faz anotações em sol maior e eu consigo vê-lo no ar. são as nuvens, é o mar. aquele mesmo mar de sempre.
Wednesday, May 30, 2007
Desencontro
Me disse que queria me ver. Ou era ter e eu nem notei? Queria estar comigo, bater um papo, tomar um café. Fazer filhos, talvez. Riu. Sequer entendi o resto, tão ocupada em ouvir as crianças chorarem no nosso futuro familiar.
Encontro
Ele é um gato. Poderia chamá-lo de AS e escrever linhas românticas e sem fundamento. Roubaria idéias de JA, WW, TJ e, claro, AC. Faria declarações de amor ao desconhecido AS, em nome da poesia, apoiada em Platão – a quem jamais chamaria de P. Relembraria nosso café-da-manhã no Garcia & Rodrigues (GR?), em mesas separadas mas com olhares encontrados. AS lia os jornais do dia, prestava atenção na minha conversa e no meu decote com sorriso maroto e sacana. AS sabe olhar um decote com polidez e interesse. Furtou sorrisos meus, que eu disfarçava fingindo que eram pra minha interlocutora AM, que mal percebeu meu flerte. Muito discreto ou até invisível foi nosso encontro. AS e eu esperamos o momento certo e depois o deixamos passar pra podermos viver desta possibilidade duvidosa que foi o nosso caso de amor. LG e AS, eternamente separados pelo rigor de nossas próprias construções sobre o amor à primeira vista.
Labels:
carioquice,
citações,
dicionário,
domingo,
espelho,
notícia,
silêncio
Tuesday, May 29, 2007
Diário público
Naquele lugar, só a gente sabia ser feliz. Era fácil, até. Quatro paredes, uma cama, tantos sonhos e realidades e aquele janelão que trazia as coisas lá de fora. Nada perturbava a perfeição. O calor não atrapalhava. Nem o Natal, que chegava. Nem o piano do vizinho, tecla por tecla. Nem o fim iminente. Nem o amor. Nada, nada, nada. Os sorrisos eram muitos, os arrepios tão naturais como o quente vento noturno e a gente mal sabia que aquele lugar estava fadado ao nosso sucesso. Só nosso. As lembranças do quarto nos pertencem tanto quanto os segredos que criamos naqueles lençóis, ao ouvirmos o dó-re-mi solitário e distante, ao nos perdermos sem medo do fim, ao bater do relógio. O tempo parou num instante que durou um verão inteiro. A gente só sabia ser feliz naquele lugar, meu bem.
Labels:
correspondência,
dicionário,
espelho,
música,
silêncio,
tempo
Monday, May 28, 2007
Desorganize-se
O vento quente me levou ao Arpoador pra ver a lua cheia. Era tão clara a noite que nem parecia dia de finados; tava mais pra carnaval. Na beira das pedras, umas crianças magras brincavam no mar, levando caixotes propositais e rindo um riso gostoso que ecoava nos prédios e voltava pra eles em forma de quero-mais. Queria que aquela fosse a minha memória de infância. Talvez eu devesse incorporá-la às minhas lembranças construídas, assim como o soltar pipa com que sempre sonhei.
Organize-se
“Estou desorganizada porque perdi o que não precisava?(…) É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.”
C.L. em Paixão Segundo G.H.
C.L. em Paixão Segundo G.H.
Monday, June 12, 2006
sejam bem-vindas as palavras
Palavras que escapam pelos dedos. Tem que agarrá-las, firmemente. Não pode deixá-las fugir. Sumidas, fazem a maior bagunca nesta cabecinha mundana, cheia de dúvidas e questões. Cheia de outras palavras e interrogações. Eu quero exclamações, vírgulas e felizes pontos finais. Quero a alegria de ver a página cheia de palavrinhas que combinam entre si. Ou que descombinem. Quero ver as palavras me acordando durante a noite. Quero palavras bem vivas. Dançando no escuro do quarto, no claro da cabeça, em tudo que é lugar. Chega de palavras burocráticas, que só batem o ponto e esperam salário no fim do mês. As palavras têm que ter alegria de viver, sair pra tomar chope depois do expediente, acordar com vontade de povoar minhas linhas, combinadas ou não. As palavras precisam se unir, formar um sindicato, criar uma auto-regulamentação. Tô pronta pra ouvir críticas e sugestões. Mas que elas, por favor, voltem a freqüentar as páginas em branco do meu caderninho interior.
Subscribe to:
Posts (Atom)